Alemão batata
Alemão batata
Lembro que, quando criança, nos encontros de família, piadas racistas eram contadas pelos adultos, geralmente no meio de um “causo” que envolvia algum colega de trabalho ou vizinho schwarz, e assim, sem entender direito íamos aprendendo através daquelas piadas horrendas que os negros “não fazem um trabalho bem feito”, “são preguiçosos”, “atrasados” ..., enfim, inferiores. Isso ocorria, apesar da existência de amigos e vizinhos queridos negros.
Já, do outro lado genealógico da família de descendentes de alemães pomeranos, uma família de schwarz morava nas terras dos tios; ajudavam na lavoura, na lida com as vacas e na colheita, recebiam salário conforme as tarefas executadas. Eu tinha dez ou doze anos, quando minha vó, conversando comigo e minha prima nos disse: “os schwarz, são tudo gente boa, mas para ser amigo; não pra casar.” Por algum motivo, a gente ficou irritando ela, dizendo que ia namorar um Schwarz; a gente ria e ela ficava brava. Trinta anos depois, um dos netos ao iniciar um namoro com uma pessoa negra, teve todo cuidado para, aos poucos, “preparar o terreno” para contar a avó querida sobre seu namoro, e meses mais tarde, apresentar a namorada. Todos os que com a vó conviviam foram, amorosamente a “re-educando”. Por fim, ela disse: “Ah, hoje em dia, isso é normal, né? E, se ele está feliz, se eles se dão bem, é isso que importa!" Olha que ela já tinha uns 70 anos. E aprendeu a não ser racista.
Voltando a Santa Cruz: apenas 3 anos atrás, em uma escola pública, de ensino noturno, em bairro periférico da cidade, onde maioria dos alunos são pardos e negros, presenciei uma cena que me deixou estarrecida. No intervalo das aulas, havia sido decorada um pequena sala onde durante o recreio a diretora seria homenageada e fatias de torta e cucas nos esperavam. Nos aglomerávamos num corredor estreito para entrar na sala apertada, quando uma voz do interior da sala grita: “Os deutsch primeiro, o schwartz por último“ soltando uma gargalhada que foi seguida por alguns dos presentes. Imediatamente olhei para único colega professor negro e após aos demais. Peguei o prato de torta, sai dali, e assim que pude fui com ele conversar. "Como tu aceita isso", perguntei. Recém chegada, estava ainda me familiarizando com a escola. "Se tu quiser denunciar serei tua testemunha", declarei. Ele, que já trabalhava ali há anos, me disse que já estava acostumado, que não dava mais “bola". Que no começo, quando chegou, reclamava com a equipe diretiva, mas que ninguém fez nada, desde então tenta ignorar. Fiquei estarrecida! É claro que fui falar com a direção. É óbvio que pedi para direção advertir o colega racista. Que esse tipo de “brincadeira" é inadmissível, aliás, não é brincadeira; é atitude racista declarada! Nunca soube se a direção o chamou para conversa ou se fez um registro de advertência. Fato, que eu mesma, critiquei o colega racista pessoalmente, pois sendo eu “deutsch“ como ele, me permitia certa liberdade.
São exemplos tão banais e ao mesmo tempo cruéis, de vivências e experiências. Nos mostra, que como brancos, podemos e devemos aprender e reaprender a não sermos racistas. Sim, sei que muitos de nós, na infância fomos xingados de “alemão batata“ na escola durante alguma discussão com um/a colega. Mas o fato é que, nunca fomos colocados no fim da fila ou deixamos de conseguir trabalho por ser “alemão batata“. Ser “alemão batata“ nunca nos impediu de entrar em algum estabelecimento ou concorrer a rainha da escola ou miss da cidade.
(Schwarz: preto; deutsch: alemão na língua alemã)

Oi, Denise, muito legal!
ResponderEliminarObrigada
EliminarOi Denise, adorei, muito certo, é o que acontece, temos que mudar isto.bj
ResponderEliminarObrigada. De fato precisamos ter ações antirracistas em todos os ambientes.
EliminarOi Denise!
ResponderEliminarGostei do teu texto, triste mas verdadeiro. Assisti e senti este preconceito dentro das escolas. Detalhe tenho sobrenome de alemão mas não sei falar está língua.
Obrigada. É necessária uma educação antirracista.
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