Cheiro de morte

 

Recuperando textos perdidos para finalmente postar, encontrei esse de 2019. Jamais podia imaginar que em 31 de dezembro de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) seria alertada sobre vários casos de pneumonia na cidade de Wuhan, na República Popular da China sobre uma nova cepa de coronavírus que não havia sido identificada antes em seres humanos. E que de fato, milhares de mortes ocorreriam no Brasil e no mundo em decorrência dela.


Cheiro de morte

 A vida tem cheiros: o doce perfume do sorriso da mãe; o cheirinho indefinido, mas, gostoso do bebezinho; o cheiro da terra molhada depois de um período de seca; o cheiro caseiro da comida preparada no fogão à lenha durante o inverno. Cheiros bons!

Este ano, 2019, tem cheiro de morte: tem cheiro ocre de Brumadinho; cheiro desesperado de adolescentes em Paraisópolis; cheiro doído da morte da policial Marciele Alves em Santa Cruz do Sul; cheiro de lamento das queimadas na Amazônia, no Pantanal e em Alter do Chão.

Tem cheiro de desespero pela aprovação das Reformas Trabalhistas e da Previdência no Congresso Nacional. Tem cheiro de gás de pimenta, de borracha e de pólvora nas truculentas ações para conter o cheiro do povo em protesto na América Latina.

Cheiro repugnante da caneta Bic na mão presidencial que assina nomeações esdrúxulas de ministros que cheiram a peixes burros e podres que não fugiram do óleo nas praias do nordeste brasileiro.

Tem cheiro de “engomadinhos” engravatados, milionários ou políticos, que não gostam do cheiro da cachaça -  preferem o cheiro do whisky importado – e, no frescor do cheiro do ar condicionado, decidem planos, ações e políticas econômicas que fazem que o trabalhador esqueça o cheiro do churrasco do final de semana e tente agradar seu paladar com o cheiro do ovo frito.

Tem cheiro fúnebre do descaso governamental, de morte mesmo, nas escolas públicas do Rio Grande do Sul. Cheiro de madeira podre e corroída pelos cupins; cheiro de merda nos sanitários entupidos. Cheiro azedo do suor adolescente nas salas de aulas sem ar condicionado. Cheiro de pó e bolor nas bibliotecas sem bibliotecários. Tem cheiro de esgoto e de carne humana em decomposição de 48 meses nos quais o salário das professoras e funcionárias cheira como zorrilho mantendo os estoques das lojas cheirando a poeira do esquecimento.

Tem cheiro de morte na Educação Pública, cheiro de putrefação no Pacote contra o Magistério e o funcionalismo Público do estado do Rio Grande do Sul, e terá o cheiro das flores fúnebres do "sim" de muitos deputados estaduais na votação na próxima semana na Assembleia gaúcha.

Resta saber se estão sentindo o cheiro esperançoso e corajoso dos que se movimentam em greve. Resta saber se o cheiro galopeiro dos gaúchos e gaúchas que apoiam a greve será ouvido pelo governador e pela Assembleia Legislativa.

Qual cheiro terá 2020?

Quais cheiros terão as próximas eleições?

 Denise Raquel Klein – professora (recém) aposentada da rede estadual

Santa Cruz do Sul, RS, 03/12/2019

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