Vila São Luís: de vila operária a bairro Universitário
De vila operária a bairro Universitário - Santa Cruz do Sul, RS
A demarcação no mapa, demonstra de forma aproximada os limites da Vila que era praticamente um beco sem saída, sendo a rua Esperança, sim; ela se chamava simplesmente Esperança, e não Boa Esperança como hoje, a última rua da parte urbana. Consta em registro de Cartório de Imóveis, de 1960: “lugar denominado Vila São Luiz, situada na Entrada da linha Rio Pardinho, zona rural e primeiro distrito dêste município”. Aliás eu preferia apenas Esperança. Quando criança, o fato de morar em rua com tal nome me alegrava e penso que a todos que ali moravam, afinal, era a última rua urbana da cidade ou poderia dizer a primeira? Nunca entendi porque colocaram o “Boa” na frente do nome, afinal, esperança não é sempre boa?
Um "fim de mundo", sem calçamento, sem água encanada e esgoto correndo à céu aberto, em valetas que percorriam a extensão das ruas. Ah, já havia energia elétrica fornecida pela extinta CEEE – Companhia Estadual de Energia Elétrica. Nasci ali, vivi minha infância e juventude também ali. Vi de perto os desdobramentos das transformações da Vila, que só o anúncio da compra de terras pela APESC para a busca de criação da futura UNISC, resultou.
Uma das primeiras ações foi a construção do Loteamento do Costa Norte: cercamento, abertura de ruas lá, sistema de água e esgoto e iluminação. A rua Esperança, e as demais da Vila, foram prolongadas ao leste e oeste abrindo caminhos pelo que eram potreiros de vacas, matas nativas, córregos e demais elementos rurais. Ao abrir caminhos, as ruas foram aplainadas e calçadas com os tradicionais paralelepípedos de arenito usados na época para a pavimentação das ruas; canalização de água e esgoto foram feitos pela CORSAN – Companhia Riograndense de Saneamento e iluminação pública foi melhorada. A alegria dos moradores era grande, em especial das mulheres, afinal, o fim da poeira permitiria a casa limpa mais tempo e as roupas brancas secarem no varal sem prejuízo ao esforço feito para lavá-las. Falando disso, lembrei que havia um córrego que atravessava o que hoje é o Campus da UNISC; lá, os guris iam brincar e tomar banho no verão, e havia o “campinho” onde passavam horas jogando bola e algumas mulheres lavavam roupas lá também. Não sei porquê, pois todas as casas tinham poço. Sabe, aquele poço de água antigo, escavado e com pedras na volta de onde se tira a água com balde puxado por uma corda. Bem, pelo menos a água era de graça...
Voltando ao calçamento, a alegria da chegada dava lugar a preocupação de ter que pagar por tal. Nossa! E como era caro, e ainda por cima vinha junto a obrigação de cada morador ter que construir sua calçada, pois a prefeitura havia dado prazo para construção das mesmas, caso contrário haveria multa. Foi uma luta e muita negociação no balcão da prefeitura. As ruas que passariam a dar acesso à UNISC também foram calçadas: Av. Independência, Av. João Pessoa, General Osório, 28 de outubro... Que maravilha, em dias de chuva, não ter barro “tabatinga” grudando na sola dos calçados e trancando as rodas das bicicletas usadas para ir ao trabalho ou ao centro. Não havia transporte público e táxi era muito caro, só para ocasiões excepcionais ou emergência.
Aos poucos, os típicos chalés de madeira e as cercas de arame que separavam os pátios foram sendo substituídos; ainda se pode ver alguns, se você observar, na parte antiga, no que era a Vila São Luís, e um exemplo nas fotos abaixo. Parte dos moradores antigos continua morando ali, e parte deles vendeu, nos anos seguintes sua propriedade, pois as ofertas foram muitas, e agora os encargos financeiros já eram maiores e nem todos conseguiram arcar com os custos.
A Vila São Luís era uma Vila de operários, criada na década de 60 e que eclodiu nos anos 70. Contava-se que um tal senhor, de bom coração, chamado Luís Schröeder, foi quem vendeu os terrenos, de forma financiada aos pobres trabalhadores. Não consta em registro de imóveis que ele fosse o proprietário dessas terras; talvez fosse uma espécie de corretor de imóveis ou agente financiador privado, mas os antigos diziam que ele e sua esposa, a Dona Flora, era pessoas boas, pois facilitavam a compra dos terrenos. Não sei a veracidade disso, assim me contaram quando criança. Bem, ela dá nome à rua onde está situado o “coleginho” como era chamado, carinhosamente, o Grupo Escolar Luís Schöeder que o homenageia. O colégio municipal oferecia estudo (não obrigatório) até a 4ª Série para a criançada do bairro. Na época era comum que grande parte das crianças dali, estudassem só até a 4ª ou no máximo até a 5ª ou 6ª série (iam para o colégio Wilke ou Ernesto Alves), pois era preciso trabalhar, ajudar em casa e havia o discurso de que “precisa começar a trabalhar cedo, senão, vira marginal.” Não havia ainda escola Rosário nem a Cohab Independência (que aliás, foi o primeiro Conjunto Habitacional popular construído na cidade. Construído naquele local, de banhado, cheio de capins, juncos e vegetação do tipo de solo sempre alagado, próximo a indústrias que existiam às margens da rodovia, como Füller e Gruendling. Não havia distrito industrial na cidade. As demais indústrias ficavam no centro ou próximas a ele, e havia a ideia de definir como distrito industrial, o entorno da Cohab.)
Mas, marginal mesmo, era a própria Vila. Explico: como toda vila de trabalhadores, seus moradores, eram marginalizados. Havia discriminação social com quem morava na vila: “Tu mora lá? Mas, não é muito perigoso?” “Na Vila São Luís só tem marginal (bandido). Não entra lá de noite!”
Sim; quem não morava na vila tinha medo. Medo e preconceito. Preconceito social, preconceito de classe, preconceito de raça. Engraçado isso. Em todo tempo que morei lá, nunca houve brigas no boteco (que também era armazém e vendia fiado, no caderninho) ou algum tiro de pistola ou afins. Mas, fora de lá, diziam que a vila era violenta. Sequer, havia arrombamento de casas, e era comum dormir de janelas abertas no verão. Bem, claro que quase todos tinham cachorro para proteger seu pátio e os mosquitos "comiam" a gente. Falando em bicho, lembrei que a SUCAM - Superintendência de Campanhas de Saúde Pública, entrava na casa da gente e borrifava tudo com algum veneno para matar "barbeiro" (aquele inseto da doença de Chagas) e pintavam atrás da porta um número.
A palavra marginal é estranha. Marginal é aquele que está à margem da sociedade, ou seja, fora da sociedade, da vida social, das regras, do consumo, da vida em comunidade. Mas, os moradores da Vila eram trabalhadores, estando inseridos na sociedade através do trabalho, na maioria das vezes formal, com carteira assinada: comerciários, industriários e funcionários públicos. Claro que havia, também, empregadas domésticas e pedreiros sem carteira assinada, comum na época.
Todos eram trabalhadores, classe popular; brancos, pretos, descendentes indígenas. Os pretos da vila São Luís eram os “melhores de vida” como se dizia. Tinham o chalé maior, melhores móveis, mais comida. Eram trabalhadores do DAER; tinham uma cooperativa, conseguiam comprar um grande rancho de alimentos via cooperativa. Passavam dias fora, trabalho braçal, pesado, longe de casa mas rodovias do estado, mas "ganhavam bem". Eram trabalhadores com carteira assinada. Mulheres pretas e brancas tomavam mate-doce juntas, ao final da tarde na casa de uma delas. Crianças pretas e brancas brincavam juntas, estudavam juntas. Jovens divertiam-se juntos também. Claro que algumas famílias eram mais próximas entre si do que outras. Claro que havia preconceito, mas os vizinhos próximos se ajudavam. Gente pobre se ajuda! Tive professora negra, professor negro, lá na década de 70, na escola Luís Schröeder. Na vila, como em qualquer outro lugar, nada é perfeito, ninguém é perfeito; mas na Vila “marginal”, na Vila com a última rua da cidade, na vila da rua Esperança, havia solidariedade e diversidade, e, o mais importante, havia respeito às diversidades.
Após a construção do campus da UNISC - Universidade de Santa Cruz do Sul, enquanto ainda denominada Vila São Luís, passa a receber uma infinidade de estudantes, que a princípio, eram abrigados em pensões, nas casas mesmo, dos moradores, em um quarto extra ou anexo, principalmente durante os cursos de férias na década de 90 (verão e inverno), fato que passou a gerar renda extra aos antigos moradores, alguns até conseguiram ampliar residências e construir novas edificações específicas para os universitários; somente após alguns anos, edifícios residenciais com este fim específico foram construídos por empreendedores imobiliários.
Mas, apesar da grande ocupação imobiliária, dos novos edifícios e apartamentos, nos últimos anos, a rua Boa Esperança tem gerado desgosto à alguns antigos e novos moradores: alagamentos e enchentes.
As chuvas, quando fortes, não encontram vazão na antiga canalização do final dos anos 80 e invadem pátios e casas, repetidas vezes. A Boa Esperança segue na esperança da construção de galerias para escoamento de água e esgoto. Os moradores, seguem trabalhadores. Trabalhadores e estudantes. Estudantes e professores. E os políticos e secretários administradores da cidade, seguem nas promessas...





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