O golpe do Conto do Bilhete Premiado

Diante dos atos do dia 08 de janeiro em Brasília, penso que todos, sem exceção, buscam refletir sobre tais ações: digerir, discernir, buscar explicações tentando entender, não só, a lógica de raciocínio de quem esteve lá e participou de todo aquele vandalismo, mas também compreender como caíram no “conto do bilhete premiado” do golpe.

Não falo dos grandes financiadores ou daqueles que planejaram (os autores intelectuais); não há dúvidas sobre seus objetivos: anular o resultado da eleição, não respeitando a Constituição Federal, com um golpe no sistema democrático trazendo de volta à presidência o derrotado e agora ex-presidente Bolsonaro. Este, criaria um “conselho” formado por pessoas indicadas por ele substituindo o STF e anulariam a eleição criando um governo de exceção.  Golpe puro, na cara dura, à República Democrática do Brasil.

Falo dos cidadãos civis, comuns, gente como a gente, que acamparam na frente dos quartéis e foram até lá, ou simpatizantes a estes, que mesmo após o terror e gravidade dos fatos, continuam a apoiá-los em seus comentários e ações, e seguem espalhando mentiras e distorções dos fatos numa velocidade incrível.

Nestes dias que seguiram o golpe, uma parente fez comigo um comentário, daqueles de frase pronta que circula em redes sociais e distorce os fatos. Começo, então, explicar os fatos dizendo a ela que está com uma informação distorcida, falsa.

Então, a pessoa grita: 

- Como é que tu sabe? Tu acha que sabe tudo?

- Estudei sobre isso, sou de Estudos Sociais, professora de História e Geografia, lembra? Respondo.

Na sequência, a pessoa berra com raiva:

- NÃO QUERO SABER! CHEGA DISSO! É A TUA OPINIÃO!

Claro que tento explicar que não é a minha opinião. Que são fatos históricos, pesquisados por uma gama de especialistas das Ciências Sociais e Humanas, entre eles, os historiadores. E que estudei anos sobre isso.

Então, enfurecida, a pessoa que não quer ouvir, não quer aprender, sai da sala.

É sobre isso.  Imagino quantos amigos, parentes, vizinhos, familiares, tentaram conversar e alertar os fanáticos bolsonaristas extremistas sobre o golpe que caíram, ou melhor, que aceitaram fazer parte. Optaram por não dialogar com quem pensa diferente. Escolheram não ouvir ou ler nada que pudesse fazê-los pensar criticamente. Adotaram uma posição de cegueira voluntária como fiéis de uma seita. Nada questionam. Seguem, compartilham e reproduzem mentiras sem nem se darem o trabalho de pensar sobre o assunto, de refletir, de raciocinar logicamente. Caíram no “conto do bilhete” apesar de todos os alertas de quem os ama ou se importa afetivamente com eles.

Isso me fez lembrar de uma amiga engenheira civil.

Antes da campanha eleitoral de 2018 começou a se interessar por política, pois foi convidada a ingressar em um Partido. Semanalmente, tomando chimarrão em minha casa, ela me perguntava sobre alguns conceitos: sistemas de governo como parlamentarismo e presidencialismo; formas de governo: monarquia, democracia, aristocracia...

A ela, eu explicava  o que seu interesse me questionava: conceitos como teocracia, burguesia, modos de produção, comunismo, liberalismo, socialismo, nazismo, fascismo, ditadura, oligarquia, tirania, ideologia, Estado mínimo, Estado de bem estar social, e claro, história e formação do Brasil; os tipos de voto no Brasil, a formação e história dos atuais partidos políticos; esquerda e direita (origem na Revolução Francesa);  princípios fundamentais da Constituição Brasileira de 1988... Ah, que conversas boas. Professor/a adora ensinar, ainda mais quando o/a aluno/a tem interesse e faz perguntas questionadoras. As tardinhas de chimarrão eram compartilhadas assim, entre falas sobre filhos, educação, política e história.

Bem, depois que ela aceitou participar de certos grupos de whatsapp, passei a receber dela “artigos” afirmando que nazismo é de esquerda[1]. Por mais que tentasse explicar o enorme equívoco dessas falas, nada a convencia. Agora, ela se pensa especialista em Estudos Sociais, História e Ciências Políticas, formada (ou melhor, formatada) pelo seus grupos não acadêmicos. As visitas deixaram de acontecer, o diálogo não era mais possível. Afinal, numa de suas últimas mensagens me disse que eu não sabia nada de história. Meus 5 anos de estudos em curso Superior validado pelo MEC, leituras, artigos, pesquisas científicas, e inúmeros cursos de atualização e aperfeiçoamento nada valem para ela. Agora é ela, que quer me "dar aula" história. 

Depois disso, entrei num grupo de engenharia para leigos pelo whatsapp. Segui uns perfis de engenheiros autodidatas do Facebook, Twitter e Instagram, e assisti uns vídeos também. Aprendi tudo sobre engenharia civil, em canais alternativos, pois os de especialistas formados em engenharia são muito difíceis de entender; tem muitas variáveis. Tá. Confesso que, mesmo assim, não entendi direito alguns conceitos matemáticos de cálculo diferencial e vetorial, e química dos materiais não entendi nadinha mesmo. Odeio química. Mas, já tenho condições de opinar e debater com os engenheiros, afinal, nasci em um prédio de hospital de vários andares, já morei em casa de chalé e de alvenaria; frequento prédios comerciais e shoppings, e dediquei muitas horas assistindo vídeos e seguindo perfis na WEB. Toda essa vivência e experiência me dá condições de saber mais sobre engenharia do que minha amiga, né não? Você me contrata como engenheira na sua obra?

Adendo: todo ser humano pode aprender, sempre! Em qualquer área de estudo, desde que busque conhecimento em fontes corretas, culturais, acadêmicas ou científicas, dependendo do foco do estudo. O texto acima contém ironia, além de fatos reais. Só não é real o fato de eu "aprender" engenharia em "fontes" alternativas.

17.01.2023 - Denise Raquel Klein- professora de Estudos Sociais e História.

Comentários

Enviar um comentário