O golpe do Conto do Bilhete Premiado
Diante dos atos do dia 08 de janeiro em Brasília, penso que todos, sem exceção, buscam refletir sobre tais ações: digerir, discernir, buscar explicações tentando entender, não só, a lógica de raciocínio de quem esteve lá e participou de todo aquele vandalismo, mas também compreender como caíram no “conto do bilhete premiado” do golpe.
Não falo dos grandes financiadores ou daqueles que planejaram (os autores intelectuais); não há dúvidas sobre seus objetivos: anular o resultado da eleição, não respeitando a Constituição Federal, com um golpe no sistema democrático trazendo de volta à presidência o derrotado e agora ex-presidente Bolsonaro. Este, criaria um “conselho” formado por pessoas indicadas por ele substituindo o STF e anulariam a eleição criando um governo de exceção. Golpe puro, na cara dura, à República Democrática do Brasil.
Nestes dias que seguiram o golpe, uma parente fez comigo um
comentário, daqueles de frase pronta que circula em redes sociais e distorce os
fatos. Começo, então, explicar os fatos dizendo a ela que está com uma
informação distorcida, falsa.
Então, a pessoa grita:
- Como é que tu sabe? Tu acha que sabe tudo?
- Estudei sobre isso, sou de Estudos Sociais, professora de
História e Geografia, lembra? Respondo.
Na sequência, a pessoa berra com raiva:
- NÃO QUERO SABER! CHEGA DISSO! É A TUA OPINIÃO!
Claro que tento explicar que não é a minha opinião. Que são
fatos históricos, pesquisados por uma gama de especialistas das Ciências
Sociais e Humanas, entre eles, os historiadores. E que estudei anos sobre isso.
Então, enfurecida, a pessoa que não quer ouvir, não quer
aprender, sai da sala.
Isso me fez lembrar de uma amiga engenheira civil.
Antes da campanha eleitoral de 2018 começou a se interessar
por política, pois foi convidada a ingressar em um Partido. Semanalmente, tomando
chimarrão em minha casa, ela me perguntava sobre alguns conceitos: sistemas de
governo como parlamentarismo e presidencialismo; formas de governo: monarquia,
democracia, aristocracia...
A ela, eu explicava o
que seu interesse me questionava: conceitos como teocracia, burguesia, modos de
produção, comunismo, liberalismo, socialismo, nazismo, fascismo, ditadura,
oligarquia, tirania, ideologia, Estado mínimo, Estado de bem estar social, e
claro, história e formação do Brasil; os tipos de voto no Brasil, a formação e
história dos atuais partidos políticos; esquerda e direita (origem na Revolução
Francesa); princípios fundamentais da
Constituição Brasileira de 1988... Ah, que conversas boas. Professor/a adora
ensinar, ainda mais quando o/a aluno/a tem interesse e faz perguntas
questionadoras. As tardinhas de chimarrão eram compartilhadas assim, entre
falas sobre filhos, educação, política e história.
Bem, depois que ela aceitou participar de certos grupos de
whatsapp, passei a receber dela “artigos” afirmando que nazismo é de esquerda[1].
Por mais que tentasse explicar o enorme equívoco dessas falas, nada a
convencia. Agora, ela se pensa especialista em Estudos Sociais, História e Ciências Políticas, formada (ou melhor, formatada) pelo seus grupos não acadêmicos. As visitas deixaram de acontecer, o diálogo não era mais possível.
Afinal, numa de suas últimas mensagens me disse que eu não sabia nada de
história. Meus 5 anos de estudos em curso Superior validado pelo MEC, leituras, artigos, pesquisas científicas, e inúmeros cursos de atualização e aperfeiçoamento nada valem para ela. Agora é ela, que quer me "dar aula" história.
Depois disso, entrei num grupo de engenharia para leigos pelo whatsapp. Segui uns perfis de engenheiros autodidatas do Facebook, Twitter e Instagram, e assisti uns vídeos também. Aprendi tudo sobre engenharia civil, em canais alternativos, pois os de especialistas formados em engenharia são muito difíceis de entender; tem muitas variáveis. Tá. Confesso que, mesmo assim, não entendi direito alguns conceitos matemáticos de cálculo diferencial e vetorial, e química dos materiais não entendi nadinha mesmo. Odeio química. Mas, já tenho condições de opinar e debater com os engenheiros, afinal, nasci em um prédio de hospital de vários andares, já morei em casa de chalé e de alvenaria; frequento prédios comerciais e shoppings, e dediquei muitas horas assistindo vídeos e seguindo perfis na WEB. Toda essa vivência e experiência me dá condições de saber mais sobre engenharia do que minha amiga, né não? Você me contrata como engenheira na sua obra?
Adendo: todo ser humano pode aprender, sempre! Em qualquer área de estudo, desde que busque conhecimento em fontes corretas, culturais, acadêmicas ou científicas, dependendo do foco do estudo. O texto acima contém ironia, além de fatos reais. Só não é real o fato de eu "aprender" engenharia em "fontes" alternativas.
17.01.2023 - Denise Raquel Klein- professora de Estudos Sociais e História.

Que legal, Denise! Estou adorando teus textos!!
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